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Publicamos aqui excertos de um trabalho de final de curso realizado por João Pimentel, em 1994.

Neste trabalho foi possível estudar parâmetros reprodutivos da ovelha Churra Mondegueira na sua área de dispersão: Concelho de Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Meda, Pinhel, Trancoso e Sabugal do Distrito da Guarda e os Concelhos de Belmonte e Covilhã do Distrito de Castelo Branco, atendendo ao regime de exploração tradicional que a desde muito rege os seus criadores.
Para o estudo dos parâmetros produtivos, nomeadamente: a produção normalizada, produção total e duração da lactação estiveram sujeitos a contraste leiteiro animais de criadores pertencentes aos Concelhos de Celorico da beira, Meda e Trancoso. Em relação ao crescimento dos borregos até à idade de abate foram apenas sujeitos a pesagens borregos de um único criador do Concelho de Trancoso.



BREVE HISTÓRIA DA MONDEGUEIRA

Autor:  João Pimentel

Origem da raça


     O aparecimento das espécies e raças ovinas primitivas, deveria ter sido determinado por influências do meio ambiente muito especiais. Actualmente as raças Autóctones existentes derivam dessas influências e da enorme acção do Homem.
     A Churra é das raças mais primitivas da Península Ibérica. Muito embora não se disponha de dados suficientes para se precisar com segurança a provável origem do Mondegueiro supõem-se que antigamente, fosse esta a raça mais disseminada em toda a Beira Alta, principalmente na zona meridional do Distrito, dele tendo derivado o Bordaleiro comum por sucessivos cruzamentos com o tronco Africano, CORDEIRO (1982). Trata-se de uma raça que pela sua robustez não foi desprezada do seu habitat natural. Os caracteres ancestrais que manifesta e a diferencia das outras raças são a sua conformação, temperamento e rusticidade. É um animal de regular desenvolvimento corporal, eumétrico de perfil ortóide. As características lanares e a pigmentação centrífuga verificada nalguns animais e, ainda a aptidão leiteira denunciam na sua representação ancestral o Ovis aries Studery.
     A ovelha da raça Mondegueira tem o seu Solar de origem situado a Norte do Alto Mondego, na área de confluência das regiões naturais Beira Douro, Beira Alta e Nordeste Transmontano. A sua exploração, tem como principal função a produção de leite, que contribui conjuntamente com a Bordaleira Serra da Estrela, seu par na região, para o fabrico do Queijo da Serra.

Evolução do efectivo Mondegueiro

     SÁ e GLÓRIA (1959), afirmam que a maior expansão do Bordaleiro Comum se terá verificado posteriormente, influenciada pelo desenvolvimento da indústria local de lanifícios, a qual passou a consumir maiores quantidades de lãs de qualidade superior às churras. Ultimamente, a contínua desvalorização das lãs Churras e a fama acrescida da raça Serra da Estrela têm feito diminuir o efectivo Mondegueiro na sua área de exploração tradicional, em proveito daquela, considerada melhor produtora de leite, como resultado de acções de melhoramento que há mais de quarenta anos se vêm realizando ininterruptamente nessa raça. Em consequência da evolução da Bordaleira Serra da Estrela que alargou a sua área de maior influência às zonas de criação das Mondegueiras obrigando este ovino a diminuir de número drasticamente no seu Solar de Origem, nomeadamente nos Concelhos de Fornos de Algodres e Celorico da Beira.
     Por outro lado, desde há dezenas de anos, tem-se estendido por outros concelhos mais a Norte, substituindo os Churros ai explorados, sobretudo os Badanos em Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo e Moncorvo, absorvendo alguns churros locais designados por Lapeiros e Marialveiros no Concelho da Mêda, onde se reconhece o seu efeito melhorador na produção leiteira. Por essa razão infiltrou-se também na região da Terra Quente de Trás-os-Montes, onde por cruzamento com o Badano e posterior mestiçamento, deu origem a uma população individualizada que substituiu a quase totalidade do efectivo Badano, que até então aí se explorava, dando origem desta forma a um novo agrupamento de ovinos citado no catálogo das raças ovinas nacionais com o nome de Churro da Terra Quente.
     No Arrolamento Geral de Gados do ano de 1972, o efectivo Mondegueiro, segundo o Instituto Nacional de Estatística, representava 2,9 % do efectivo nacional, passando a representar 0,2 % em 1992, mesma fonte. MARTINS (1993), refere que a meados do séc. XIX, se fizeram os primeiros encontros entre a raça Badana e a Raça Mondegueira com a finalidade de se conseguir um animal mais robusto e mais adaptado à região da Terra Quente. Estas experiências foram feitas na Quinta da Terrincha por iniciativa do seu proprietário. Por tal facto esta raça é conhecida no meio rural por "Terrincha" ou "Tarrincha".
     Segundo AZEVEDO (1988), continua-se a verificar a introdução pelo Douro Superior Sul da raça Mondegueira, e é, de certo modo importante, dentro da primitiva zona do Mondegueiro a existência de ovinos Bordaleiros Serra da Estrela e seus cruzados, além de outros.
     Por sua vez, a Norte da Beira Baixa, mais precisamente no Concelho de Belmonte, muito gado Churro foi substituído pela variedade Mondegueira, melhor produtora de leite, segundo CRUZ (1945) citado por ANDRADE et AL. (1987), que se alargou aos Concelhos da Covilhã e Fundão, do Distrito de Castelo Branco, onde ainda hoje existem ovinos Mondegueiros em convivência com outras etnias.
     Torna-se pertinente salientar o facto de não aparecer em 1972 qualquer referência ao Churro da Terra Quente, uma vez que ele se encontra diluído nos valores do Badano e de não haver qualquer distinção em relação aos Merinos Brancos e Pretos. As raças exóticas também não são referenciadas.
     
Em 1991 foi efectuado pela D.R.A.B.I. um levantamento dos rebanhos da raça Mondegueira onde se poderá ver por concelhos, no quadro seguinte, o nº de animais e o nº de efectivos:

CENSOS DA RAÇA MONDEGUEIRA

GUARDA
Almeida. 3 efectivos. 391 animais.
Celorico da Beira.
5 efectivos. 343 animais.
Guarda. 1 efectivo. 85 animais.
Pinhel. 1 efectivo. 41 animais.
Sabugal. 20 efectivos. 1253 animais.
Trancoso.
23 efectivos. 1242 animais.

CASTELO BRANCO
Belmonte. 1 efectivo. 122 animais.
Covilhã.
3 efectivos. 409 animais.
Fundão. 4 efectivos. 856 animais.

TOTAL: 61 efectivos. 4742 animais.
Fonte: D.R.A.B.I.(1990)

     Como se pode verificar os concelhos mais importantes em relação ao número de animais da raça são Sabugal e Trancoso, contudo suspeita-se que no Sabugal alguns churros encontrados tivessem uma ligeira pigmentação avermelhada na cabeça, sendo assim provável o cruzamento com o Churro do Campo apesar de apresentarem grande tamanho.
    É importante referir que os Concelhos não pertencentes à Beira Interior, não foram alvo deste censo. Esses Concelhos que julgo importantes para o somatório dos animais desta raça são: Aguiar da Beira, Fornos de Algodres, Gouveia, Mangualde, Moimenta da Beira, Penalva do Castelo, Penedono, S.João da Pesqueira, Seia, Sernancelhe, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de Paiva.

    Presentemente calcula-se que o seu efectivo actual esteja compreendido entre as 3000 e as 4000 cabeças (COVICÔA, 1994), com tendência a aumentar, uma vez que se encontra em funcionamento o registo zootécnico dos animais da raça que se enquadra perfeitamente nas medidas agro-ambientais por se encontrar em vias de extinção.